Exercício de literatura I

Caminhada noturna

Imagine-se o leitor caminhando pela calçada. É madrugada e você está um pouco agitado. A volta para casa sozinho a essa hora da noite lhe deixa com o batimento cardíaco acelerado, excitado, até um pouco trêmulo e com as extremidades dos dedos geladas. Você caminha apressadamente, tenta se furtar nas sombras das árvores, próximo a frente das casas, não deseja ser visto por quem quer que seja. Você tem medo dos outros, se sente indefeso. A tensão toma conta do seu corpo todo, mas você está perto de casa, e por isso quase deixa de pensar em chegar logo. TÁ! Até parece que seu coração parou. Todo o movimento do mundo cessa por um segundo, que parece durar muito mais que isto. Seu corpo todo se enrijece, num espasmo, uma contração involuntária de todos seus músculos. Seu corpo espera o pior, sua mente neste momento é só uma espectadora, não conseguiria tomar atitude alguma. Talvez nem seus reflexos funcionassem, se preciso. Maldito gato! Coberturas de metal servindo de telhado deveriam ser proibidas a noite…

David M. Silva

Azevedo e as mulheres

Imagino que seja clara a minha inquietação para com as relações que se desenvolvem entre homens e mulheres em nossa sociedade.

Escrevi aqui um pouco sobre mulheres em post anterior.

Agora volto pra comentar mais algumas coisas.

Vou transcrever um trecho d’O cortiço, de Aluísio Azevedo:

“…  Agora, encarando as lágrimas do Bruno, ela compreendeu e avaliou a fraqueza dos homens, a fragilidade desses animais fortes, de músculos valentes, de patas esmagadoras, mas que se deixavam encabrestar e conduzir humildes pela soberana e delicada mão da fêmea. (…)

E surgiu-lhe então uma idéia bem clara da sua própria força e do seu próprio valor.

Sorriu.

E no seu sorriso já havia garras. (…)

E continuou a sorrir, desvanecida na sua própria superioridade sobre esse outro sexo, vaidoso e fanfarrão, que se julgava senhor e que, no entanto, fora posto no mundo simplesmente para servir ao feminino; escravo ridículo que, para gozar um pouco, precisava tirar da sua mesma ilusão a substância do seu gozo; ao passo que a mulher, a senhora, a dona dele, ia tranquilamente desfrutanto o seu império, endeusada e querida, prodigalizando martírios, que os miseráveis aceitavam contritos, a beijar os pés que os deprimiam e as implacáveis mãos que os estrangulavam.”

A transcrição correta deveria ter sido feita de um trecho maior, mas eu selecionei as partes que mais me impressionaram, e, mesmo fora do contexto, acredito que consegue transmitir uma boa idéia do que o autor está contando.

Primeiramente, muitos dos livros de vestibular, que eu óbviamente não li todos, não o são a toa. E sim, só agora isso começa a ficar claro pra mim, porque na época que eu “precisava” lê-los todos pareciam muito chatos.

Acho que é até desnecessário comentar, mas é um trecho maravilhoso que me impressionou muito durante a leitura do livro.

Uma menina que se torna mulher e começa a entender todas as malícias que podem existir na relação entre homens e mulheres. Quem leu o livro deve ter percebido como esses acontecimentos se entrelaçam maravilhosamente para que esse momento pudesse acontecer.

Óbviamente é uma interpretação masculina de uma experiência feminina, e por si só isso implica muitas coisas.

Gostaria de conhecer uma interpretação feminina de um momento semelhante para ter uma idéia melhor das implicações que mencionei acima.

Acho que o ponto de interrogação que eu coloquei sobre as mulheres continua sem solução nesse período. Isto porque Aluísio de Azevedo toma como ponto de partida uma constatação de Pombinha: as mulheres têm poder sobre os homens. E isso, de algum modo, eu já havia constatado no último post. Falta, no entanto, adentrar e conhecer as origens e a natureza desse “poder”.

Clarice Lispector

Estava procurando agora há pouco como redigir um texto hitórico, uma narrativa sobre fatos históricos.

Isso porque estou escrevendo o relatóro da minha pesquisa de Iniciação científica, que é bastante histórica, toda baseada em documentos, por enquanto.

Me deparei então com um post (http://www.algosobre.com.br/redacao/planejando-um-texto-narrativo.html) interessante sobre planejamento de um texto narrativo.

Mas o que mais me impressionou foi um texto da Clarice Lispector que o autor do post utiliza como exemplo.

Achei um texto maravilhoso, por isso compartilho aqui:

O primeiro beijo

Os dois mais murmuravam que conversavam: havia pouco iniciara-se o namoro e ambos andavam tontos, era o amor: Amor com o que vem junto: ciúme.

– Está bem, acredito que sou a sua primeira namorada, fico feliz com isso. Mas me diga a verdade, só a verdade: você nunca beijou uma mulher antes de me beijar?

Ele foi simples:

– Sim, já beijei antes uma mulher:

– Quem era ela? perguntou com dor:

Ele tentou contar toscamente, não sabia como dizer:

O ônibus da excursão subia lentamente a serra. Ele, um dos garotos no meio da garotada em algazarra, deixava a brisa fresca bater-lhe no rosto e entrar-lhe pelos cabelos com dedos longos, finos e sem peso como os de uma mãe. Ficar às vezes quieto, sem quase pensar, e apenas sentir- era tão bom. A concentração no sentir era difícil no meio da balbúrdia dos companheiros.

E mesmo a sede começara: brincar com a turma, falar bem alto, mais alto que o barulho do motor; rir, gritar; pensar, sentir, puxa vida! como deixava a garganta seca.

E nem sombra de água. O jeito .era juntar saliva, e foi o que fez. Depois de reunida na boca ardente engolia- a lentamente, outra vez e mais outra. Era morna, porém, a saliva, e não tirava a sede. Uma sede. enorme maior do que ele próprio, que lhe tomava agora o corpo todo.
A brisa fina, antes tão boa, agora ao sol do meio-dia tornara-se quente e árida e ao penetrar pelo nariz secava ainda mais a pouca saliva que pacientemente juntava.

E se fechasse as narinas e respirasse um pouco menos daquele vento de deserto? Tentou pôr instantes mas logo sufocava. O jeito era mesmo esperar, espera!: Talvez minutos apenas, enquanto sua sede era de anos.

Não sabia como e por que mas agora se sentia mais perto da água, pressentia-a mais próxima, e seus olhos saltavam para fora da janela procurando a estrada, penetrando entre os arbustos, espreitando, farejando.

O instinto animal dentro dele não errara: na Cla inesperada da estrada, entre arbustos estava… o chafariz de onde brotava num filete a água sonhada.

O ônibus parou, todos estavam com sede mas ele conseguiu ser o primeiro a chegar ao chafariz de pedra, antes de todos.

De olhos fechados entreabriu os lábios e colou-os ferozmente ao orifício de onde jorrava a água. O primeiro gole fresco desceu, escorrendo pelo peito até a barriga.

Era a vida voltando, e com esta encharcou todo o seu interior arenoso até se saciar: Agora podia abrir os olhos.

Abriu-os e viu bem junto de sua cara dois olhos de estátua fitando-o e viu que era a estátua de uma mulher e que era da boca da mulher que saía a água. Lembrou-se de que realmente ao primeiro gole sentira nos lábios um contato gélido, mais frio do que a água.

E soube então que havia colado sua boca na boca da estátua da mulher de pedra. A vida havia jorrado dessa boca, de uma boca para outra.
Intuitivamente, confuso na sua inocência, sentia intrigado: mas não é de uma mulher que sai o líquido vivificador? o líquido germinador da vida… Olhou a estátua nua.

Ele a havia beijado.

Sofreu um tremor que não se via por fora e que se iniciou bem dentro dele e tomou-lhe o corpo todo estourando pelo rosto em brasa viva.
Deu um passo para trás ou para frente, nem sabia mais o que fazia. Perturbado, atônito, percebeu que uma parte de seu corpo, sempre antes relaxada, estava agora com uma tensão agressiva, e isso nunca lhe tinha acontecido.

Estava de pé, docemente agressivo, sozinho no meio dos outros, de coração batendo fundo, espaçado, sentindo o mundo se transformar: A vida era inteiramente nova, era outra, descoberta com sobressalto. Perplexo, num equilíbrio frágil.

Até que, vinda da profundeza de seu ser; jorrou de uma fonte oculta nele a verdade. Que logo o encheu de susto e logo também de um orgulho antes jamais sentido: ele…

Ele se tornara homem.

(Clarice Lispector – in Felicidade Clandestina)