Azevedo e as mulheres

Imagino que seja clara a minha inquietação para com as relações que se desenvolvem entre homens e mulheres em nossa sociedade.

Escrevi aqui um pouco sobre mulheres em post anterior.

Agora volto pra comentar mais algumas coisas.

Vou transcrever um trecho d’O cortiço, de Aluísio Azevedo:

“…  Agora, encarando as lágrimas do Bruno, ela compreendeu e avaliou a fraqueza dos homens, a fragilidade desses animais fortes, de músculos valentes, de patas esmagadoras, mas que se deixavam encabrestar e conduzir humildes pela soberana e delicada mão da fêmea. (…)

E surgiu-lhe então uma idéia bem clara da sua própria força e do seu próprio valor.

Sorriu.

E no seu sorriso já havia garras. (…)

E continuou a sorrir, desvanecida na sua própria superioridade sobre esse outro sexo, vaidoso e fanfarrão, que se julgava senhor e que, no entanto, fora posto no mundo simplesmente para servir ao feminino; escravo ridículo que, para gozar um pouco, precisava tirar da sua mesma ilusão a substância do seu gozo; ao passo que a mulher, a senhora, a dona dele, ia tranquilamente desfrutanto o seu império, endeusada e querida, prodigalizando martírios, que os miseráveis aceitavam contritos, a beijar os pés que os deprimiam e as implacáveis mãos que os estrangulavam.”

A transcrição correta deveria ter sido feita de um trecho maior, mas eu selecionei as partes que mais me impressionaram, e, mesmo fora do contexto, acredito que consegue transmitir uma boa idéia do que o autor está contando.

Primeiramente, muitos dos livros de vestibular, que eu óbviamente não li todos, não o são a toa. E sim, só agora isso começa a ficar claro pra mim, porque na época que eu “precisava” lê-los todos pareciam muito chatos.

Acho que é até desnecessário comentar, mas é um trecho maravilhoso que me impressionou muito durante a leitura do livro.

Uma menina que se torna mulher e começa a entender todas as malícias que podem existir na relação entre homens e mulheres. Quem leu o livro deve ter percebido como esses acontecimentos se entrelaçam maravilhosamente para que esse momento pudesse acontecer.

Óbviamente é uma interpretação masculina de uma experiência feminina, e por si só isso implica muitas coisas.

Gostaria de conhecer uma interpretação feminina de um momento semelhante para ter uma idéia melhor das implicações que mencionei acima.

Acho que o ponto de interrogação que eu coloquei sobre as mulheres continua sem solução nesse período. Isto porque Aluísio de Azevedo toma como ponto de partida uma constatação de Pombinha: as mulheres têm poder sobre os homens. E isso, de algum modo, eu já havia constatado no último post. Falta, no entanto, adentrar e conhecer as origens e a natureza desse “poder”.

Anúncios

Uma resposta em “Azevedo e as mulheres

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s