Piscine Molitor Patel

Estava eu com os dois antebraços ralados na mesma região. Keith me pergunta onde eu ralei-os. Digo a Keith que eu estava na casa de uma mulher casada noite passada quando seu marido chegou. Ao ouvir o barulho do portão se abrir tive que fugir as pressas pelo muro dos fundos que dá para rua de trás. Como estou fraco de ombros e o muro era alto, errei a primeira tentativa e ralei o antebraço tentando me segurar pendurado no muro. Na segunda tentativa tomei mais distância para correr antes de saltar e com a mesma quantidade de esforço consegui vencer o obstáculo.

Keith fica surpreso, mas  me diz que não acredita que eu fosse capaz de tal feito. Pergunto se ele se refere à mulher casada ou ao muro. Ele esclarece que se referia à mulher casada.

Então digo a ele que estava fazendo trabalho de campo para a minha pesquisa em uma rua sem saída quando se inicia uma troca de tiros que parece vir em nossa direção. Tivemos que fugir as pressas pelo muro dos fundos que dá para o campo de trás. Como estou fraco de ombros e o muro era alto, errei a primeira tentativa e ralei o antebraço tentando me segurar pendurado no muro. Na segunda tentativa tomei mais distância para correr antes de saltar e com a mesma quantidade de esforço consegui vencer o obstáculo.

Keith fica surpreso, mas  me diz que também não acredita que eu fosse capaz de tal feito.

Digo a Keith que peguei carona com um amigo que ia em direção à cidade seguinte, mas que precisava deixar alimentos frescos em sua casa, para depois me deixar em minha casa e então prosseguir viagem. Ainda era madrugada quando chegamos e percebemos que a fechadura do portão social havia sido trocada. Como meu amigo está acima do peso, tive que pular o muro da frente para abrir o portão de veículos por dentro. Como estou fraco de ombros e o muro era alto, errei a primeira tentativa e ralei o antebraço tentando me segurar pendurado no muro. Na segunda tentativa tomei mais distância para correr antes de saltar e com a mesma quantidade de esforço consegui vencer o obstáculo.

Agora Keith acredita na minha história.

Penso que Piscine Molitor Patel era um contador de histórias melhor do que eu.

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Tráfico de drogas e crime organizado

Ultimamente tenho me interessado bastante pelos temas relacionados ao tráfico de drogas e crime organizado.

É uma realidade que nos atinge cotidianamente de formas diversas.

Acredito que conhecendo melhor essa realidade podemos lidar melhor com ela.

Acho que é justamente essa a relevância de pesquisas nesse campo.

Essas citações me chamaram a atenção nas coisas que ando lendo, acho que nos ajudam a refletir melhor sobre o contexto atual, a olhar de maneira mais ampla, não apenas quando o problema é conosco.

“Vive-se diante de dois mundos separados materialmente e unificados ideologicamente. Encontram-se neles aparentemente as mesmas mercadorias, porém as oportunidades são extremamente desiguais, mesmo que, por vezes, procurem se igualar” ( Marisa FEFFERMANN. Vidas arriscadas: o cotidiano dos jovens trabalhadores do tráfico, 2006).

“O ar refrigerado do Shopping Center dissipa, por instantes, as barreiras: agora não importa investigar a origem do dinheiro, não interessa se eles moram em favelas” (CRUZ NETO, O. Nem soldados nem inocentes – juventude e tráfico de drogas no Rio de Janeiro, 2001, p. 142).

Último de Zafón

As histórias acabam nos deixando um vazio e um pouco de saudade…

“Acalme-se ou vai criar uma pedra no fígado – aconselhou Fermín – Cortejar uma mulher é como um tango: absurdo, pura frescura. Mas é você o homem, é você quem deve tomar a iniciativa”. (p. 157)

“As estatísticas demosntram: morre mais gente na cama do que na trincheira” (Fermín Romero de Torres, p. 248).

“Às vezes nós pensamos que as pessoas são como décimos de loteria: que estão aí para concretizar nossas absurdas ilusões” (Isaac Monfort, p. 294).

Zafón II

“Mas como eu sou um cavalheiro à moda antiga, não me aproveitei dela e me conformei com um casto beijo na bochecha. Porque não estou com pressa, sabe? A espera aumenta o desejo. Tem uns bobalhões por ai que acham que, se põem a mão na bunda de uma mulher e ela não reclama, já está no papo. Aprendizes. O coração de uma mulher é um labirinto de sutilezas que desafia a mente grosseira do homem trapasseiro. Para realmente possuir uma mulher, é preciso pensar como ela, e a primeira coisa a fazer é ganhar sua alma. O resto, o doce e fofo embrulho que nos faz perder os sentidos e a virtude, vem por acréscimo” (A sombra do vento, Carlos Ruiz Zafón, p. 111, grifo meu).

Azevedo e as mulheres

Imagino que seja clara a minha inquietação para com as relações que se desenvolvem entre homens e mulheres em nossa sociedade.

Escrevi aqui um pouco sobre mulheres em post anterior.

Agora volto pra comentar mais algumas coisas.

Vou transcrever um trecho d’O cortiço, de Aluísio Azevedo:

“…  Agora, encarando as lágrimas do Bruno, ela compreendeu e avaliou a fraqueza dos homens, a fragilidade desses animais fortes, de músculos valentes, de patas esmagadoras, mas que se deixavam encabrestar e conduzir humildes pela soberana e delicada mão da fêmea. (…)

E surgiu-lhe então uma idéia bem clara da sua própria força e do seu próprio valor.

Sorriu.

E no seu sorriso já havia garras. (…)

E continuou a sorrir, desvanecida na sua própria superioridade sobre esse outro sexo, vaidoso e fanfarrão, que se julgava senhor e que, no entanto, fora posto no mundo simplesmente para servir ao feminino; escravo ridículo que, para gozar um pouco, precisava tirar da sua mesma ilusão a substância do seu gozo; ao passo que a mulher, a senhora, a dona dele, ia tranquilamente desfrutanto o seu império, endeusada e querida, prodigalizando martírios, que os miseráveis aceitavam contritos, a beijar os pés que os deprimiam e as implacáveis mãos que os estrangulavam.”

A transcrição correta deveria ter sido feita de um trecho maior, mas eu selecionei as partes que mais me impressionaram, e, mesmo fora do contexto, acredito que consegue transmitir uma boa idéia do que o autor está contando.

Primeiramente, muitos dos livros de vestibular, que eu óbviamente não li todos, não o são a toa. E sim, só agora isso começa a ficar claro pra mim, porque na época que eu “precisava” lê-los todos pareciam muito chatos.

Acho que é até desnecessário comentar, mas é um trecho maravilhoso que me impressionou muito durante a leitura do livro.

Uma menina que se torna mulher e começa a entender todas as malícias que podem existir na relação entre homens e mulheres. Quem leu o livro deve ter percebido como esses acontecimentos se entrelaçam maravilhosamente para que esse momento pudesse acontecer.

Óbviamente é uma interpretação masculina de uma experiência feminina, e por si só isso implica muitas coisas.

Gostaria de conhecer uma interpretação feminina de um momento semelhante para ter uma idéia melhor das implicações que mencionei acima.

Acho que o ponto de interrogação que eu coloquei sobre as mulheres continua sem solução nesse período. Isto porque Aluísio de Azevedo toma como ponto de partida uma constatação de Pombinha: as mulheres têm poder sobre os homens. E isso, de algum modo, eu já havia constatado no último post. Falta, no entanto, adentrar e conhecer as origens e a natureza desse “poder”.

Clarice Lispector

Estava procurando agora há pouco como redigir um texto hitórico, uma narrativa sobre fatos históricos.

Isso porque estou escrevendo o relatóro da minha pesquisa de Iniciação científica, que é bastante histórica, toda baseada em documentos, por enquanto.

Me deparei então com um post (http://www.algosobre.com.br/redacao/planejando-um-texto-narrativo.html) interessante sobre planejamento de um texto narrativo.

Mas o que mais me impressionou foi um texto da Clarice Lispector que o autor do post utiliza como exemplo.

Achei um texto maravilhoso, por isso compartilho aqui:

O primeiro beijo

Os dois mais murmuravam que conversavam: havia pouco iniciara-se o namoro e ambos andavam tontos, era o amor: Amor com o que vem junto: ciúme.

– Está bem, acredito que sou a sua primeira namorada, fico feliz com isso. Mas me diga a verdade, só a verdade: você nunca beijou uma mulher antes de me beijar?

Ele foi simples:

– Sim, já beijei antes uma mulher:

– Quem era ela? perguntou com dor:

Ele tentou contar toscamente, não sabia como dizer:

O ônibus da excursão subia lentamente a serra. Ele, um dos garotos no meio da garotada em algazarra, deixava a brisa fresca bater-lhe no rosto e entrar-lhe pelos cabelos com dedos longos, finos e sem peso como os de uma mãe. Ficar às vezes quieto, sem quase pensar, e apenas sentir- era tão bom. A concentração no sentir era difícil no meio da balbúrdia dos companheiros.

E mesmo a sede começara: brincar com a turma, falar bem alto, mais alto que o barulho do motor; rir, gritar; pensar, sentir, puxa vida! como deixava a garganta seca.

E nem sombra de água. O jeito .era juntar saliva, e foi o que fez. Depois de reunida na boca ardente engolia- a lentamente, outra vez e mais outra. Era morna, porém, a saliva, e não tirava a sede. Uma sede. enorme maior do que ele próprio, que lhe tomava agora o corpo todo.
A brisa fina, antes tão boa, agora ao sol do meio-dia tornara-se quente e árida e ao penetrar pelo nariz secava ainda mais a pouca saliva que pacientemente juntava.

E se fechasse as narinas e respirasse um pouco menos daquele vento de deserto? Tentou pôr instantes mas logo sufocava. O jeito era mesmo esperar, espera!: Talvez minutos apenas, enquanto sua sede era de anos.

Não sabia como e por que mas agora se sentia mais perto da água, pressentia-a mais próxima, e seus olhos saltavam para fora da janela procurando a estrada, penetrando entre os arbustos, espreitando, farejando.

O instinto animal dentro dele não errara: na Cla inesperada da estrada, entre arbustos estava… o chafariz de onde brotava num filete a água sonhada.

O ônibus parou, todos estavam com sede mas ele conseguiu ser o primeiro a chegar ao chafariz de pedra, antes de todos.

De olhos fechados entreabriu os lábios e colou-os ferozmente ao orifício de onde jorrava a água. O primeiro gole fresco desceu, escorrendo pelo peito até a barriga.

Era a vida voltando, e com esta encharcou todo o seu interior arenoso até se saciar: Agora podia abrir os olhos.

Abriu-os e viu bem junto de sua cara dois olhos de estátua fitando-o e viu que era a estátua de uma mulher e que era da boca da mulher que saía a água. Lembrou-se de que realmente ao primeiro gole sentira nos lábios um contato gélido, mais frio do que a água.

E soube então que havia colado sua boca na boca da estátua da mulher de pedra. A vida havia jorrado dessa boca, de uma boca para outra.
Intuitivamente, confuso na sua inocência, sentia intrigado: mas não é de uma mulher que sai o líquido vivificador? o líquido germinador da vida… Olhou a estátua nua.

Ele a havia beijado.

Sofreu um tremor que não se via por fora e que se iniciou bem dentro dele e tomou-lhe o corpo todo estourando pelo rosto em brasa viva.
Deu um passo para trás ou para frente, nem sabia mais o que fazia. Perturbado, atônito, percebeu que uma parte de seu corpo, sempre antes relaxada, estava agora com uma tensão agressiva, e isso nunca lhe tinha acontecido.

Estava de pé, docemente agressivo, sozinho no meio dos outros, de coração batendo fundo, espaçado, sentindo o mundo se transformar: A vida era inteiramente nova, era outra, descoberta com sobressalto. Perplexo, num equilíbrio frágil.

Até que, vinda da profundeza de seu ser; jorrou de uma fonte oculta nele a verdade. Que logo o encheu de susto e logo também de um orgulho antes jamais sentido: ele…

Ele se tornara homem.

(Clarice Lispector – in Felicidade Clandestina)