“O Estado se aliou ao Mercado, contra a Natureza e contra a Cultura” – EVC

O texto que o Matheus me passou é relativamente antigo, de setembro de 2012, e podemos debater muitas das questões colocadas por EVC. Trago aqui, contudo, o que mais me impressionou. 

Tempos atrás, companheiros e companheiras de PPGS discutíamos sobre as manifestações de junho-julho de 2013. Como não é raro acontecer, a conversa toma seus próprios rumos e discutimos várias questões, desde reforma agrária até educação. É justamente a discussão de EVC sobre educação que trago aqui, neste caso, a relação entre educação e política. Tomo a liberdade de reproduzir um trecho extenso da entrevista:

Qual é sua percepção sobre a participação política do brasileiro?

Preferiria começar por uma desgeneralização: vejo a sociedade brasileira como profundamente dividida no que concerne à sua visão do país e do futuro. A ideia de que existeum Brasil, no sentido não-trivial das ideias de unidade e de brasilidade, parece-me uma ilusão politicamente conveniente (sobretudo para os dominantes) mas antropologicamente equivocada. Existem no mínimo dois, e, a meu ver, bem mais Brasis. O conceito geopolítico de Estado-nação unificado não é descritivo, mas prescritivo. Há fraturas profunda na sociedade brasileira. Há setores da população com uma vocação conservadora imensa; eles não integram necessariamente uma classe específica, embora as chamadas “classes médias”, ascendentes ou descendentes, estejam bem representadas ali. Grande parte da chamada sociedade brasileira — a maioria, infelizmente, temo — se sentiria muito satisfeita sob um regime autoritário, sobretudo se conduzido mediaticamente pela autoridade paternal de uma personalidade forte. Mas isso é uma daquelas coisas que a minoria libertária que existe no país, ou mesmo uma certa medioria “progressista”, prefere manter envolta em um silêncio embaraçado. Repete-se a todo e a qualquer propósito que o povo brasileiro é democrático, “cordial”, amante da liberdade, da igualdade e da fraternidade – o que me parece uma ilusão muito perigosa. É assim que vejo a “participação política do povo brasileiro”: fraturada, dividida, polarizada, uma polarização que não está necessariamente em harmonia com as divisões politicas oficiais (partidos etc.). O Brasil permanece uma sociedade visceralmente escravocrata, renitentemente racista, e moralmente covarde. Enquanto não acertarmos contas com esse inconsciente, não iremos “para a frente”. Em outros momentos, é claro, soluços insurreicionais esporádicos, e uma certa indiferença pragmática em relação aos poderes constituídos, que se testemunha sobretudo entre os mais pobres, ou os mais alheios ao teatro montado pelo andar de cima, inspiram modestas utopias e moderados otimismos por parte daqueles que a historia colocou na confortável posição de “pensar o Brasil”. Nós, em suma.

O que é preciso para mudar isso?

Falar, resistir, insistir, olhar por cima do imediato – e, evidentemente, educar. Mas não “educar o povo”, como se a elite fosse muito educada e devêssemos (e pudéssemos) trazer o povo para um nível superior; mas sim criar as condições para que o povo se eduque e acabe educando a elite, quem sabe até livrando-se dela. A paisagem educacional do Brasil de hoje é a de uma terra devastada, um deserto. E não vejo nenhuma iniciativa consistente para tentar cultivar esse deserto. Pelo contrário: chego a ter pesadelos conspiratórios de que não interessa ao projeto de poder em curso modificar realmente a paisagem educacional do Brasil: domesticar a força de trabalho, se é que é isso mesmo que se está sinceramente tentando (ou planejando), não é de forma alguma a mesma coisa que educar.

Isto é só um pesadelo, decerto: não é assim, não pode ser assim, espero que não seja assim. Mas fato é que não se vê uma iniciativa de modificar a situação. Vê-se é a inauguração bombástica de dezenas de universidades sem a mínima infra-estrutura física (para não falar de boas bibliotecas, luxo quase impensável no Brasil), enquanto o ensino fundamental e médio permanecem grotescamente inadequados, com seus professores recebendo uma miséria, com as greves de docentes universitários reprimidas como se eles fossem bandidos. A “falta” de instrução — que é uma forma muito particular e perversa de instrução imposta de cima para baixo — é talvez o principal fator responsável pelo conservadorismo reacionário de boa parte da sociedade brasileira. Em suma, é urgente uma reforma radical na educação brasileira.

“A floresta e a escola”, sonhava Oswald de Andrade. Infelizmente, parece que deixaremos de ter uma e ainda não teremos a outra. Pois sem escola, aí é que não sobrará floresta mesmo.

Por onde começaria a reforma na educação?

Começaria por baixo, é lógico, no ensino fundamental – que continua entregue às moscas. O ensino público teria de ter uma política unificada, voltada para uma – com perdão da expressão – “revolução cultural”. Não adianta redistribuir renda (ou melhor, aumentar a quantidade de migalhas que caem da mesa cada vez mais farta dos ricos) apenas para comprar televisão e ficar vendo o BBB e porcarias do mesmo quilate, se não redistribuímos cultura, educação, ciência e sabedoria; se não damos ao povo condições de criar cultura em lugar de apenas consumir aquela produzida “para” ele. Está havendo uma melhora do nível de vida dos mais pobres, e talvez também da velha classe média – melhora que vai durar o tempo que a China continuar comprando do Brasil e não tiver acabado de comprar a África. Apesar dessa melhora no chamado nível de vida, não vejo melhora na qualidade efetiva de vida, da vida cultural ou espiritual, se me permitem a palavra arcaica. Ao contrário. Mas será que é preciso mesmo destruir as forças vivas, naturais e culturais, do povo, ou melhor, dos povos brasileiros para construir uma sociedade economicamente mais justa? Duvido.

Nesse cenário, quais os temas capazes de mobilizar a sociedade brasileira, hoje?

Vejo a “sociedade brasileira” imantada, pelo menos no plano de sua auto-representação normativa por via da midia, por um ufanismo oco, um orgulho besta, como se o mundo (desta vez, enfim) se curvasse ao Brasil. Copa, Olimpíadas… Não vejo mobilização sobre temas urgentíssimos, como esses da educação e da redefinição de nossa relação com a terra, isto é, com aquilo que está por baixo do território. Natureza e Cultura, em suma, que hoje não apenas se acham mediadas, mediatizadas pelo Mercado, mas mediocrizadas por ele. O Estado se aliou ao Mercado, contra a Natureza e contra a Cultura.

 

Gosto de pensar, neste caso junto com EVC, nesta potencialidade da educação, quando transformada em educação que liberta. Educação que ensina a pensar e refletir para além dos modelos tradicionais e, de certa forma, impostos pelas grandes estruturas que balizam nossa vida cotidiana. Que educação é essa? Onde algo assim é ou foi observável? Se não existe ou existiu, por onde começamos a construí-la? Se não é uma política de Estado, o que podemos fazer para começar a construí-la? As questões são muitas e ainda hoje este otimismo não parece se transformar em ação. Esta aí um dos problemas que emperram o idealismo de minha juventude. Isso mudará?

Recomendo a leitura da entrevista completa. EVC trata de muitos outros temas e seu texto, apesar de extenso, é de leitura muito agradável: http://outraspalavras.net/posts/outros-valores-alem-do-frenesi-de-consumo/

Brasil na Copa

Eu gosto de assistir os jogos da Seleção brasileira, em alguns momentos mais em outros menos. Atualmente, duvido muito de que alguém que esteja assistindo o Brasil jogar não esteja sofrendo.

Para mim, o grande mérito do time brasileiro é sua defesa: Maicon, Juan, Lúcio, Michel Bastos e Júlio César. Com a falta de gols no ataque, a defesa consistente dá mais tranquilidade ao time.

A grande questão, contudo, é a da eficiência. Apesar da ausência de espetáculos brasileiros o time vem ganhando e é o 1º do ranking da FIFA. Mas esperar grandes espetáculos brasileiros, cheios de habilidade, grandes dribles, muitos gols é meio caminho para a decepção. O que temos visto é um time com lampejos de criatividade durante o jogo e com uma boa consistência defensiva.

Isso é a cara do técnico? Eu acho que sim.

Há várias maneiras de se montar uma Seleção, tendo em vista que ele pode escolher qualquer jogador brasileiro. Entretanto, Dunga adotou uma estratégia de constituição de um grupo ao longo de seu comando no time brasileiro, isto é, mudar minimamente os jogadores utilizados para promover coesão entre os jogadores, o que influencia no desempenho da equipe, de fato. Imagino que o treinador tenha se decidido por uma formação tática logo no início de sua gestão e trabalhou na sua manutenção durante todo o período.

Tem sido bonito? Poucas vezes. Tem sido eficiente? Sim, bastante. Há equipes eficientes e que jogam bonito? Sim, acho que o equilíbrio entre eficiência e espetáculo pode ser alcançado, principalmente na Seleção, que tem um leque imenso de jogadores à disposição. O técnico fez uma opção e está seguindo uma linha de atuação bem definida ao longo de todo seu trabalho. Mas uma coisa há que ser dita: na Copa, a história é outra. E é claro para mim que em momentos decisivos um grupo coeso e eficiente como é o da Seleção pode levar alguma vantagem, principalmente em um campeonato de tiro curto, como é a Copa.



Sobre uma deficiência

Hoje vim aqui compartilhar uma inquietação.

Nesse semestre estou cursando várias disciplinas que dizem respeito ao Brasil. Na antropologia, na sociologia, na ciência política, na história e na economia os textos tem como objeto o Brasil, procurando interpretá-lo, compreendê-lo ou explicar alguns de seus problemas. Tenho a impressão de que a grande maioria das interpretações sobre o Brasil, e principalmente sobre a formação do país, repousam sobre as análises econômicas. Isto é, a economia é a chave básica para uma compreensão, ou pelo menos uma interpretação, de alguns aspectos da história e da formação do Brasil.

Lendo Florestan Fernandes hoje me dei conta de algo que julguei interessante, e que talvez seja recorrente dentro da minha turma. Esse autor, assim como muitos outros que constituem a bibliografia das nossas disciplinas nesse semestre, utilizam-se massivamente de análises econômicas que são macro, isto é, dizem respeito a grandes períodos de tempo e se interessam por “estruturas”, são caracterizadas por um nível de abstração bastante alto.

Me parece que em determinado momento, antes deste semestre, eu deveria ter tido contato com o método que a Economia utiliza, isto é, saber como os economistas conseguem obter essas análises “estruturais”, quais são as ferramentas que utilizam, a partir do que eles constróem suas abstrações.

Possivelmente, esse momento teria sido a disciplina “Economia política”, do primeiro semestre do curso de Ciências Sociais, aqui da UFSCar. Contudo, mesmo a tendo cursado, sinto falta dessa minima noção do método da Economia. Acredito que essa noção ajudaria muito a compreender os textos das disciplinas desse semestre. Visto que por serem análises “estruturais”, ou macro, exigem um alto grau de abstração e outras técnicas que eu não domino.