Do que é ter 24 anos, um mês e quatorze dias

Ter vinte quatro anos me deixa confuso

É preciso ter vinte e quatro anos para ficar confuso desse jeito

Você sabe onde está e sabe para onde quer ir

Mas será que sabe mesmo?

 

É o que você sabe,

Ou é o quanto de gordura você tem no corpo?

 

Há tantos caminhos!

 

Uma vez alguém me disse e ninguém me disse nada

De onde venho, pra onde vou: do que importa?

E dizem que tem minha vida toda planejada!

A contra-corrente, a dúvida sortuna

Depois de um filme, às duas e meia passadas da madrugada

 

É exatamente porque não é o mais fácil

É exatamente porque não é o mais ousado, mas é ousado

Como diria um engenheiro, seria mais fácil

 

Ter vinte e quatro anos é saber apenas que sua casa deverá ter um grande jardim

Um grande cachorro

E um grande amor

 

o que se quer e o que se precisa nem sempre é a mesma coisa

alguma vez é o que se precisa?

 

Escrever realmente precisa fazer algum sentido,

Ou servirá apenas para aliviar a cabeça para uma meia noite de sono?

As palavras brilham muito no escuro da mente no escuro do quarto,

Não se consegue dormir assim

 

Acontecimentos que despertam você para uma atitude

Uma tomada de decisão

Acordar para o que você já é, para o que você precisa ser e para o que não te leva a lugar algum

 

Pode ser que isso só aconteça durante alguma madrugada, após um filme, quando se tem vinte e quatro anos

“O Estado se aliou ao Mercado, contra a Natureza e contra a Cultura” – EVC

O texto que o Matheus me passou é relativamente antigo, de setembro de 2012, e podemos debater muitas das questões colocadas por EVC. Trago aqui, contudo, o que mais me impressionou. 

Tempos atrás, companheiros e companheiras de PPGS discutíamos sobre as manifestações de junho-julho de 2013. Como não é raro acontecer, a conversa toma seus próprios rumos e discutimos várias questões, desde reforma agrária até educação. É justamente a discussão de EVC sobre educação que trago aqui, neste caso, a relação entre educação e política. Tomo a liberdade de reproduzir um trecho extenso da entrevista:

Qual é sua percepção sobre a participação política do brasileiro?

Preferiria começar por uma desgeneralização: vejo a sociedade brasileira como profundamente dividida no que concerne à sua visão do país e do futuro. A ideia de que existeum Brasil, no sentido não-trivial das ideias de unidade e de brasilidade, parece-me uma ilusão politicamente conveniente (sobretudo para os dominantes) mas antropologicamente equivocada. Existem no mínimo dois, e, a meu ver, bem mais Brasis. O conceito geopolítico de Estado-nação unificado não é descritivo, mas prescritivo. Há fraturas profunda na sociedade brasileira. Há setores da população com uma vocação conservadora imensa; eles não integram necessariamente uma classe específica, embora as chamadas “classes médias”, ascendentes ou descendentes, estejam bem representadas ali. Grande parte da chamada sociedade brasileira — a maioria, infelizmente, temo — se sentiria muito satisfeita sob um regime autoritário, sobretudo se conduzido mediaticamente pela autoridade paternal de uma personalidade forte. Mas isso é uma daquelas coisas que a minoria libertária que existe no país, ou mesmo uma certa medioria “progressista”, prefere manter envolta em um silêncio embaraçado. Repete-se a todo e a qualquer propósito que o povo brasileiro é democrático, “cordial”, amante da liberdade, da igualdade e da fraternidade – o que me parece uma ilusão muito perigosa. É assim que vejo a “participação política do povo brasileiro”: fraturada, dividida, polarizada, uma polarização que não está necessariamente em harmonia com as divisões politicas oficiais (partidos etc.). O Brasil permanece uma sociedade visceralmente escravocrata, renitentemente racista, e moralmente covarde. Enquanto não acertarmos contas com esse inconsciente, não iremos “para a frente”. Em outros momentos, é claro, soluços insurreicionais esporádicos, e uma certa indiferença pragmática em relação aos poderes constituídos, que se testemunha sobretudo entre os mais pobres, ou os mais alheios ao teatro montado pelo andar de cima, inspiram modestas utopias e moderados otimismos por parte daqueles que a historia colocou na confortável posição de “pensar o Brasil”. Nós, em suma.

O que é preciso para mudar isso?

Falar, resistir, insistir, olhar por cima do imediato – e, evidentemente, educar. Mas não “educar o povo”, como se a elite fosse muito educada e devêssemos (e pudéssemos) trazer o povo para um nível superior; mas sim criar as condições para que o povo se eduque e acabe educando a elite, quem sabe até livrando-se dela. A paisagem educacional do Brasil de hoje é a de uma terra devastada, um deserto. E não vejo nenhuma iniciativa consistente para tentar cultivar esse deserto. Pelo contrário: chego a ter pesadelos conspiratórios de que não interessa ao projeto de poder em curso modificar realmente a paisagem educacional do Brasil: domesticar a força de trabalho, se é que é isso mesmo que se está sinceramente tentando (ou planejando), não é de forma alguma a mesma coisa que educar.

Isto é só um pesadelo, decerto: não é assim, não pode ser assim, espero que não seja assim. Mas fato é que não se vê uma iniciativa de modificar a situação. Vê-se é a inauguração bombástica de dezenas de universidades sem a mínima infra-estrutura física (para não falar de boas bibliotecas, luxo quase impensável no Brasil), enquanto o ensino fundamental e médio permanecem grotescamente inadequados, com seus professores recebendo uma miséria, com as greves de docentes universitários reprimidas como se eles fossem bandidos. A “falta” de instrução — que é uma forma muito particular e perversa de instrução imposta de cima para baixo — é talvez o principal fator responsável pelo conservadorismo reacionário de boa parte da sociedade brasileira. Em suma, é urgente uma reforma radical na educação brasileira.

“A floresta e a escola”, sonhava Oswald de Andrade. Infelizmente, parece que deixaremos de ter uma e ainda não teremos a outra. Pois sem escola, aí é que não sobrará floresta mesmo.

Por onde começaria a reforma na educação?

Começaria por baixo, é lógico, no ensino fundamental – que continua entregue às moscas. O ensino público teria de ter uma política unificada, voltada para uma – com perdão da expressão – “revolução cultural”. Não adianta redistribuir renda (ou melhor, aumentar a quantidade de migalhas que caem da mesa cada vez mais farta dos ricos) apenas para comprar televisão e ficar vendo o BBB e porcarias do mesmo quilate, se não redistribuímos cultura, educação, ciência e sabedoria; se não damos ao povo condições de criar cultura em lugar de apenas consumir aquela produzida “para” ele. Está havendo uma melhora do nível de vida dos mais pobres, e talvez também da velha classe média – melhora que vai durar o tempo que a China continuar comprando do Brasil e não tiver acabado de comprar a África. Apesar dessa melhora no chamado nível de vida, não vejo melhora na qualidade efetiva de vida, da vida cultural ou espiritual, se me permitem a palavra arcaica. Ao contrário. Mas será que é preciso mesmo destruir as forças vivas, naturais e culturais, do povo, ou melhor, dos povos brasileiros para construir uma sociedade economicamente mais justa? Duvido.

Nesse cenário, quais os temas capazes de mobilizar a sociedade brasileira, hoje?

Vejo a “sociedade brasileira” imantada, pelo menos no plano de sua auto-representação normativa por via da midia, por um ufanismo oco, um orgulho besta, como se o mundo (desta vez, enfim) se curvasse ao Brasil. Copa, Olimpíadas… Não vejo mobilização sobre temas urgentíssimos, como esses da educação e da redefinição de nossa relação com a terra, isto é, com aquilo que está por baixo do território. Natureza e Cultura, em suma, que hoje não apenas se acham mediadas, mediatizadas pelo Mercado, mas mediocrizadas por ele. O Estado se aliou ao Mercado, contra a Natureza e contra a Cultura.

 

Gosto de pensar, neste caso junto com EVC, nesta potencialidade da educação, quando transformada em educação que liberta. Educação que ensina a pensar e refletir para além dos modelos tradicionais e, de certa forma, impostos pelas grandes estruturas que balizam nossa vida cotidiana. Que educação é essa? Onde algo assim é ou foi observável? Se não existe ou existiu, por onde começamos a construí-la? Se não é uma política de Estado, o que podemos fazer para começar a construí-la? As questões são muitas e ainda hoje este otimismo não parece se transformar em ação. Esta aí um dos problemas que emperram o idealismo de minha juventude. Isso mudará?

Recomendo a leitura da entrevista completa. EVC trata de muitos outros temas e seu texto, apesar de extenso, é de leitura muito agradável: http://outraspalavras.net/posts/outros-valores-alem-do-frenesi-de-consumo/

Piscine Molitor Patel

Estava eu com os dois antebraços ralados na mesma região. Keith me pergunta onde eu ralei-os. Digo a Keith que eu estava na casa de uma mulher casada noite passada quando seu marido chegou. Ao ouvir o barulho do portão se abrir tive que fugir as pressas pelo muro dos fundos que dá para rua de trás. Como estou fraco de ombros e o muro era alto, errei a primeira tentativa e ralei o antebraço tentando me segurar pendurado no muro. Na segunda tentativa tomei mais distância para correr antes de saltar e com a mesma quantidade de esforço consegui vencer o obstáculo.

Keith fica surpreso, mas  me diz que não acredita que eu fosse capaz de tal feito. Pergunto se ele se refere à mulher casada ou ao muro. Ele esclarece que se referia à mulher casada.

Então digo a ele que estava fazendo trabalho de campo para a minha pesquisa em uma rua sem saída quando se inicia uma troca de tiros que parece vir em nossa direção. Tivemos que fugir as pressas pelo muro dos fundos que dá para o campo de trás. Como estou fraco de ombros e o muro era alto, errei a primeira tentativa e ralei o antebraço tentando me segurar pendurado no muro. Na segunda tentativa tomei mais distância para correr antes de saltar e com a mesma quantidade de esforço consegui vencer o obstáculo.

Keith fica surpreso, mas  me diz que também não acredita que eu fosse capaz de tal feito.

Digo a Keith que peguei carona com um amigo que ia em direção à cidade seguinte, mas que precisava deixar alimentos frescos em sua casa, para depois me deixar em minha casa e então prosseguir viagem. Ainda era madrugada quando chegamos e percebemos que a fechadura do portão social havia sido trocada. Como meu amigo está acima do peso, tive que pular o muro da frente para abrir o portão de veículos por dentro. Como estou fraco de ombros e o muro era alto, errei a primeira tentativa e ralei o antebraço tentando me segurar pendurado no muro. Na segunda tentativa tomei mais distância para correr antes de saltar e com a mesma quantidade de esforço consegui vencer o obstáculo.

Agora Keith acredita na minha história.

Penso que Piscine Molitor Patel era um contador de histórias melhor do que eu.

Escrever é sangrar pelas pontas

pelas pontas dos dedos

pela ponta da caneta e do lápis

*

Escrever é se aliviar do fardo e da angústia

é entregar aos outros um pouco do que é seu

é compartilhar

*

Escreve que passa

escreve que respira

escreve que cria

*

Escrever o que se quer

mesmo que pelas palavras dos outros

é reconciliar consigo mesmo

*

D.

Drogas

Por que as bebidas alcóolicas e o cigarro são legais enquanto outras drogas como maconha e cocaína são ilegais?

O que diferencia umas das outras? O grau de dependência que pode causar?

Me parece que em termos de dependência e danos que podem causar ao organismo tais drogas não se diferenciam tanto. O que dizer sobre os acidentes causados por motoristas embriagados? Ou ainda os problemas que o cigarro pode acarretar à saúde dos fumantes?

Não faço aqui uma apologia ao uso de nenhum tipo de droga, longe disso. Trata-se apenas de uma reflexão sobre uma realidade que muitas vezes me parece um tanto contraditória.

Seria uma questão de “trajetória histórica” dessas drogas?: Álcool e fumo sempre existiram no Brasil enquanto as outras drogas só vieram depois? Para Michel Misse é uma questão de significado contextual para a ordem pública.

De qualquer maneira acho que a questão merece nossa atenção e um mínimo de reflexão.